Do baú de 2003/2004 e a propósito das Guerras que insistem em viver

FINGIMENTO DO REAL

O que os olhos não vêm o coração não sente? Ou fingem não ver?

Afinal somos todos dotados de uma máscara sem rosto, da qual nos servimos e pintamos de cinismo sempre que é preciso? É a mesma que faz brotar um bloco gélido à volta do coração, perante todas as situações, pelas quais, alguém, jamais gostaria de passar e que por isso mesmo nos torna desumanos. Somos animais inteligentes que gozamos quando infligimos dor no nosso semelhante, mas que tememos quando nos consciencializamos que essa imagem possa ser percepcionada pelo exterior e então matamos um sorriso; puxamos os cantos dos lábios e fingimos indignação e estupefacção, como se estivéssemos diante de algo nunca antes visto ou imaginado.

Afirmamo-nos racionais quando somos abismalmente mais maliciosos e até mesmo apologistas do mal, o que qualquer outro ser vivo seria incapaz de considerar. A Natureza humana deu-nos esta capacidade de evoluirmos e de criarmos ao longo dos tempos a nossa maneira instintiva de sobreviver, mas que progressivamente nos tem destruído a passos largos, somos sem dúvida anti-racionais e mais animais que os próprios animais. Serve portanto o sábio ditado (embora transformado em questão), que introduz esta exposição de palavras, para explicar que embora saibamos das atrocidades que se cometem, que sempre se cometeram e sempre se cometerão num campo de batalha ou/e em qualquer situação, isso pode ainda assim passar-nos ao lado, desde que não sejamos obrigados a encarar e enfrentar dentro do nosso quotidiano, na nossa vidinha, o que de mais monstruoso ainda se comete.

No mês passado, o Exército Americano anunciou que dezassete soldados no Iraque, incluindo um general, foram removidos do seu posto depois de serem acusados de maus tratos infligidos a prisioneiros iraquianos. Mas como sempre, os pormenores (o essencial da questão) foram mantidos em segredo até ao momento em que vídeos e imagens vieram a público e que mostraram soldados americanos, violentando e transgredindo todos os direitos a que não só um prisioneiro de guerra deve, pode e tem de usufruir, mas que visam a integridade física e psicológica de qualquer ser humano. Neste caso as vítimas são Iraquianos que foram presos próximo de Bagdad, alvo de torturas, agressões com cães e assassinados desmesuradamente.

Para não contrariar o que acontece vitaliciamente, o exército investigou e publicou um relato sem muitos detalhes do que indubitavelmente se passava de forma sistemática. Agora, um general do exército e outros militares de patentes mais baixas por si comandados, podem enfrentar o fim de uma carreira militar.

Mais uma vez foi necessário que imagens fossem estampadas diante dos nossos olhos, lançadas ao nosso rosto, como tartes carregadas de sofrimento, para que só assim houvesse alguma reacção, de considerável relevância da parte do povo, mas que, como sempre e infelizmente, amanhã ou depois já se tenha esquecido. Não seremos por demais hipócritas? Ficamos chocados com o que vimos, indignados por nos absorverem até aos ossos com dolorosos diagramas visuais tão virulentos, mas que devido à banalidade dos mesmos, somos levados a normalizar este sentimento de inquietação, de mau estar e intranquilidade, na concepção de um padrão de cenas e factos em que este tipo de situações são tão ordinárias que admitimos à partida nada poder fazer para contrariar tais acontecimentos e entramos novamente num estado de hibernação, esperando por novas e “reveladoras” imagens chocantes que venham a público para nos acordar e tirar deste sono que teima em residir na falta de coragem de todos.

Parece que fica chique mostrar que se vê o telejornal, dá a sensação de se ser instruído e que se cultiva diariamente, portanto falar do que deu nas notícias de manhã, à hora do almoço ou ainda na noite de ontem, fica bem, mas é preciso continuar a ver os telejornais, amanhã queremos notícias novas e mais reflexos memorizados e estudados. Esta ironia serve, não só mas também, para concretizar um outro ditado exponencial intemporal; não a vale a pena tapar o sol com uma peneira.

Contudo não se quer, de maneira alguma, deixar passar a ideia de que o que se passou seja admissível, mas sim, que não é nada de extraordinário e que já não se estivesse à espera, ou não estivéssemos nós a falar de Guerra. Não conhecemos palavra mais pejorativa que esta; Guerra. É por esta que devemos ficar ofegantes e aflitos, pois trás consigo todos os males do mundo e invoca todos os prazeres da carnificina, da mutilação, da aniquilação em massa e destruição inconsequente que caminha de olhos abertos (mas vendo o mesmo que com eles fechados) para a extinção humana.